22 de novembro de 2009

Um passado inconveniente

Demorei vinte anos para concluir a coisa mais óbvia de toda a minha vida: não sou nada além de um passado inconveniente na vida de duas pessoas que ousam se intitular meus pais. É claro que eu estou definindo pais utopicamente: como o refúgio infinito para o qual as pessoas sempre podem voltar.

Dada a definição, posso diretamente inferir que isso jamais aconteceu (ao menos desde o tempo que possuo memória). Primeiramente porque não moro com ambos desde os três anos de idade - quando se separaram. Não que a separação seja a pior coisa do mundo, na realidade, mantenho-me indiferente quanto à separação (mas não quanto aos seus efeitos colaterais).

Ademais, acabei não morando com nenhum deles. O que obviamente contribui para essa falta de noção de refúgio - visto que o contato era bem restrito, portanto, qualquer noção de refúgio era tão restrita quanto (não existia internet, telefone era caro e por aí vai).

Irrelevava isso até que comecei a perceber a utopia no relacionamento de outras pessoas. Não era uma utopia, era simplesmente algo real - que me foi negado durante toda minha existência.

Poucas vezes realmente precisei contar com alguém nesse nível, uma pena que em todas elas acabei por falar com as paredes, pois havia uma corrida frenética para ver quem se livrava do problema primeiro. Não que houvesse má vontade! De forma alguma! Era apenas o medo de assumir uma responsabilidade que nunca existiu.

Por fim, percebi, derradeiramente, que represento, na vida de ambas as pessoas supracitadas, um simples ponto fora da curva, uma falha de experimento por assim dizer. Nesse sentido, não seria nada além de um erro no passado de ambos. Um erro que fala, que supostamente pensa e, finalmente, percebe coisas tão óbvias que perduraram por tanto tempo obscuras.

Um comentário:

Shinji-kun disse...

Nunca soube desse seu lado...
Bom, se quiser conversar sobre algo, eu to do seu lado (literalmente, eu durmo no quarto ao lado XDDDDD).

Mas o que acho é que você não foi um erro... Pelo menos não acho que eles pensem assim. O erro foi outro... a separação (ou talvez, eles terem se unido desde o começo, vai saber...)
e é triste que você seja envolvido nessa situação...

Acho que isso não deve ajudar muito, e até acho que não entendo direito essa situação... visto que na minha vida tenho essa utopia que você descreveu (que me espanto estar cada vez mais rara). Porém, acho que você não deve se culpar por isso... O erro não é você... simplesmente você foi arrastado para o meio da situação pelo destino.

Abraços, meu amigo!