7 de março de 2007

Memórias Póstumas de um Amigo Meu




Memórias póstumas de um amigo meu

Morreu ele com uns vinte anos. Ninguém se importou, era mais um marginalizado na sociedade. Morreu de verdade, não foi coisa de ator.

Veio a falecer num dia como outro qualquer... Quente! Decorrente da negligência humana. Sua morte também foi decorrente dessa. Fora ao médico, disse-lhe somente que era um resfriado, uma coisa banal. Não pudera ele prever que essa gripezinha fora a causa fatal.

Sua família processaria o médico se ela existisse. Vivia sozinho, alguns acreditavam que era insano. Cultuava seu mundo, o mundo à sua perspectiva. Um descalabro, uma demonstração altiva do que o homem criara!

Escrevia como eu, com frases truncadas. Às vezes com algum motivo, mas em geral não significavam nada. Não era um ser fácil de ser compreendido. De sua suposta loucura era este mais um motivo.

Em vida, ele não foi nada. Provavelmente, não o é em morte também. Não faz por merecer a atenção de outrem.

Quando vivia, antes de contrair a gripezinha que o definhara. Costumava ele na rua sentar, pegar um violão e começava a trovar. Versos inversos ele punha-se a prostrar. Numa harmonia pobre que a qualquer músico seria capaz de aniquilar.

Ninguém parava para ouví-lo. Não podiam perder seu tempo prestando a atenção em letras escangalhadas, todas feitas para serem comprimidas à sua música suspeita.

Fora isso, nenhum ser 'humano' sabia o que mais de sua vida fazia. Alguns apostavam que depois disso era ela vazia. Talvez ganhariam.

Talvez não! Esse é o objetivo dessas memórias. Contar de um ser inexistente uma suposta história. De um olvidado, uma escória.

Não usava eletricidade, fez questão de cortar os cabos e o imposto à cidade. Vivia ele numa ruralidade. Digna esta do século anterior.

Em seu covil, nada tinha de valor. Apenas umas plantas, umas árvores e uma flor. Era esta um espólio de um desvanecido amor.

A água, necessária em época de calor, vinha de um antigo poço. Trabalhado, arquitetado e usado por tal moço. Mas agora que não é cuidada, tornou-se apenas um velho fosso. Cheio de água parada.

Água esta parada quanto sua antiga morada. Que agora está por desabar.

Já era hora de demolir, era hora de pilhar! Era hora de coisas de valor procurar!

Mas ninguém nada encontrou em sua casa além de seus instrumentos, verdadeiros e chorosos lamentos. De tão mal cuidados que se encontravam.

As madeiras, à lareira! Que nada mais era que um velho tambor. Era este a inspiração que o levava a compor. Ouvir o rangido dos metais por sua casca, cada barulho, cada estrondo, uma lasca! Dele esse prazer ninguém tasca.

Descreviam estes sons como os rugidos do inferno. Mal sabiam eles que o barulho pior era o interno, que o doente sempre ficava a se maravilhar.

Cessando suas descrições musicais, falarei mais sobre suas sessões triviais - não passariam estas de comer e plantar.

Afinal ele dinheiro não tinha. Não juntava sequer uma moedinha, mesmo que no chão fosse encontrar. Dizia que elas eram o valor de se subjugar.

Sua vida permaneceu uma incógnita. Talvez fosse o verdadeiro anarquista! Não! Não passava de um merda niilista que do mundo desistiu de participar...

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